Em meio a escândalos de corrupção e nepotismo, o presidente de Angola anunciou que não tentará reeleição em 2017. O líder é o segundo mais longevo entre os presidentes africanos, e deixa o poder quase quatro décadas após assumi-lo. As expectativas não são de grandes mudanças.

Texto/ Solon Neto
Edição de Imagem/ Pedro Borges
Foto de capa/ Reuters/Hugo Correia

Pela primeira vez o presidente José Eduardo dos Santos não irá se candidatar à presidência de Angola. A indicação de José Eduardo para o partido Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA) levará, em 2017, o nome de seu aliado, João Lourenço. O anúncio aconteceu ainda em fevereiro e repercutiu na imprensa internacional. A confirmação aconteceu no último dia 4 de fevereiro, com o anúncio da lista de candidatos do MPLA.

Em 2017, Angola fará sua quarta eleição presidencial desde a pacificação do país, em 2002. Entre a independência e a pacificação, o país viveu uma guerra civil protagonizada pelo MPLA e pela União Nacional pela Independência Total de Angola (UNITA). A guerra sucedeu os conflitos vividos contra o colonialismo, entre 1961 e 1975, e marcou a disputa pelo poder.

O MPLA, partido socialista e revolucionário, liderou as transformações que sucederam a revolução dos cravos em Portugal, livrando Angola do colonialismo e abrindo caminho para a independência. Desde 1979, após a morte de Agostinho Neto, a figura de José Eduardo dos Santos se mantém à frente do país.

Ceticismo quanto às mudanças

A notícia foi comemorada por meios de comunicação alternativos locais, como o Maka Angola, que publicou uma carta aberta sobre a questão, porém não foi tratada com tanto ânimo assim. O texto, escrito por Rafael Marques de Morais, um dos jornalistas angolanos mais notáveis, faz referência a José Eduardo dos Santos apontando “escândalos de corrupção e incompetência do seu governo, [e] a falência das suas políticas económico-sociais”.

João Lourenço e José Eduardo dos Santos [ Ampe Rogério/RA ]

Rafael Marques também aponta acusações de nepotismo em relação ao governo do presidente, um dos mais longevos da atual África: “Um dos pontos que mais tem desgastado a sua imagem e que exige atenção urgente é a partilha do poder com os seus filhos. Aproveite para criar também um ambiente de humildade e segurança no que diz respeito à sua família, tomando a decisão de demitir, também voluntariamente, os seus filhos José Filomeno do Santos da presidência do Fundo Soberano, e Isabel dos Santos da Sonangol”.

A família de José Eduardo tornou-se bilionária à frente do poder na Angola. Sua filha, Isabel dos Santos, é a mulher mais rica da África. A nomeação da própria filha para dirigir uma empresa estatal gerou questionamentos no país.

A Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola, Sonangol, existe desde 1976 e é uma empresa estatal angolana que controla a produção e distribuição de gás e petróleo no país. O petróleo é o principal produto de exportação de Angola, responsável, em 2015, por nada menos que 95% das exportações do país, segundo dados do International Trade Centre, sendo a China o maior comprador do produto. A empresa é considerada fundamental para a política do país.

Isabel dos Santos é considerada a mulher mais rica da África, com uma fortuna de cerca de 3,5 bilhões de dólares (Foto: Bruno Fonseca/LANDOV)

O estado angolano também é acusado pela imprensa local e por organizações internacionais por ser autoritário e cercear a liberdade de imprensa e de expressão no país. Segundo o “World Factbook” da CIA, toda a telecomunicação de alcance nacional é estatal em Angola.

O alerta lançado por muitos jornalistas e ativistas é o de que, com esse quadro, a mudança no poder pode não significar muita coisa diante da repressão e corrupção vivida no país.

A UNITA, maior partido de oposição no país, demonstrou completa descrença em qualquer mudança no cenário político do país com o anúncio da não candidatura do atual presidente. “Não há mudança nenhuma no país, nem haverá mudança, enquanto o MPLA estiver a governar. Não é a reforma de uma só pessoa que reforma o regime. Nem é a transferência do chefe da viatura para o banco de trás que altera o rumo do veículo. Ele continua a dirigir o veículo a partir do banco de trás, apesar de ter alugado um novo motorista”, afirmou o partido em comunicado oficial divulgado em 17 de fevereiro.

Corrupção nas alturas

Segundo a agência Transparência Internacional, Angola é um dos países mais corruptos do mundo. O país figura na 164ª posição no ranking da organização, que tem 173 países listados. O Brasil é o 79º.

O relatório do grupo aponta a proximidade entre a corrupção e a desigualdade no mundo. Angola teve crescimento econômico relativo recentemente, mas continua um país desigual. Em 2012, o país chegou a registrar um crescimento de 8,5% em seu Produto Interno Bruto (PIB), porém o desempenho caiu desde então. Em 2015 o país cresceu 0,9% e os números esperados sobre 2016 devem apontar estagnação econômica. A razão dessa situação é a queda do preço do petróleo, carro-chefe da economia angolana.

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