KL Jay é um dos DJs mais respeitados do Brasil, e é integrante do principal grupo de rap do país, os Racionais MC’s. Para ele, os negros devem andar na rua como se fossem um “leão”, porque estão “em território inimigo”.

Texto / Pedro Borges
Imagem / Alma Preta

Mais do que letras excepcionais, as produções dos Racionais MC’s têm outra característica marcante, também responsável por colocar os músicos no posto de melhor grupo de rap do país: as batidas. O ritmo de canções como Negro Drama, Da Ponte pra Cá, entre outras, são frutos do trabalho de todos integrantes, e tem participação dele, o KL Jay.

O grupo chamou a atenção da sociedade por apresentar a violência sofrida pela comunidade negra nas periferias das grandes cidades, em especial em São Paulo, nas décadas de 1990 e 2000.

Passados 30 anos da fundação do grupo, as estatísticas oficiais continuam a apontar a existência de uma maior violência por parte do Estado contra pretos e pardos, que compõem o grupo de negros, de acordo com o IBGE.

A continuidade desse cenário para KL Jay não é uma surpresa. Para ele, a comunidade negra no Brasil está “em território inimigo”. Por isso, o DJ é enfático e diz que negras e negros devem andar atentos na rua: “Ande na rua como se você fosse um leão, ou como se fosse um pitbull, para todo mundo te olhar e pensar, ‘não vou mexer com essa pessoa’”.

O DJ se descreve como alguém que gosta de dirigir, beber vinho, comer massa, fazer sexo, ouvir música, ver filme, sair com os amigos e brincar. Ele também tem uma característica não tão conhecida, que carrega há 29 anos, o vegetarianismo.

Neste ano, o DJ também promete lançar seu novo álbum, “KL Jay na batida Volume II”, projeto que está sendo desenvolvido há 4 anos, e que conta com a participação de outros produtores e rappers.“Eu gostei muito do disco”, conta.

Infância, tranquilidade e racismo

Kleber Geraldo Lelis Simões nasceu no dia 10 de Agosto de 1969, na cidade de São Paulo, e cresceu no Tucuruvi, região norte da metrópole. Ele lembra que passou boa parte da infância dentro de casa, e que não saia muito para a rua.

“Eu tinha um vizinho e lembro que o pai dele era super honesto. Tinha uma divisão no quintal, um muro baixo. Ele ficava de um lado, eu ficava do outro, e a gente ficava brincando”.

Ainda menino, lembra da companhia de um tio de segundo grau, que ia sempre a sua casa para brincar de damas. Kléber se recorda de perder todas e elogiar o tio, que ria das vitórias e dizia que o menino estava aprendendo.

“A minha infância, infância mesmo, foi calma. Eu ia para a escola, voltava, ficava em casa”.

O campo de futebol nas proximidades foi o que mobilizou Kleber a sair para a rua. Ele, que gostava assistir as partidas, conforme foi crescendo, passou a jogar com os amigos no campo, onde antes era apenas espectador.

A tranquilidade das memórias infantis só é rompida pelas primeiras recordações de racismo, que o levam ao estado de Minas Gerais, onde mora parte da família.

Entre os 6 e 7 anos, costumava visitar a avó e brincar na rua com os colegas da região. Ele diz que os meninos brancos falavam na frente das crianças negras uma série de ofensas racistas.

“Eu não assimilava, não entendia. ‘Por que o cara está falando isso?’”.

Filho de um homem branco e uma mulher negra, Kléber também se recorda de ouvir várias colocações racistas do pai no dia-a-dia, o que ele não conseguia entender.

“Meu pai contava piada racista. E eu não estou falando isso com mágoa dele. Nem ele sabia, talvez, a gravidade do que ele estava falando”.

As primeiras batidas da vida

Na adolescência, Kléber conheceu a paixão que o marcaria durante toda a vida, a música. Lembra de ouvir as estações AM no rádio da sua mãe, que foi o despertar do interesse para a cultura.

Ele ouvia dos colegas mais velhos que nos bailes e nas matinês de domingo as músicas tocadas eram aquelas da rádio FM. O rádio gravador do pai, com as estações nessa frequência, foi a ponte entre Kléber e o funk, estilo musical que o deixou deslumbrado.

“A minha adolescência foi essa, escola e música”, conta.

É nessa fase, indo para a rua encontrar os amigos e na busca do primeiro emprego, que o jovem começou a sentir o peso maior do racismo. É nesse momento que ele passa a ser, por exemplo, parado pela polícia.

Sem qualquer explicação sobre o racismo por parte do pai, da mãe, ou mesmo da escola, Kléber foi entendendo e aprendendo a se defender sozinho, no dia-a-dia. “É louco porque você não tem resposta, atitude, você não sabe o que falar”.

A missão de o ensinar a combater as desigualdades raciais foi entregue à música, ao hip hop, e à leitura. É nessa época, durante os anos 1980, que Kléber vê a transição, a mudança de posto de som favorito entre os jovens da periferia, do funk para o rap.

Fundamental para o amadurecimento político e anti-racista do jovem, o Public Enemy, grupo de rappers norte-americanos responsável por denunciar as violências feitas por parte do Estado contra a comunidade negra, foi uma fonte de inspiração para KL Jay.

“Depois veio o Notorius Big, Tupac, mas foi o Public Enemy que despertou”.

O rap foi para KL Jay seu irmão mais velho, pai, amigo, quem contou para ele como enfrentar as injustiças raciais da vida. “Uma pessoa te mostra o caminho, você está perdido. Vai aqui que você vai se dar bem, mano. Você deve um favor para essa pessoa. Eu devo um favor ao hip hop. Eu posso estar viajando, mas o hip hop salvou uma geração que estava fadada a desaparecer do planeta”.

Nas letras e batidas do Public Enemy, ouvia os músicos Chuck D, Flavor Flav, Professor Griff, Khari Wynn, e DJ Lord falarem sobre ativistas como Martin Luther King Jr., os Panteras Negras, Steve Biko, Malcolm X.

Foi a partir dessa provocação, que em 1991, Kléber leu a autobiografia de Malcolm X. “O livro foi foda, porque as comparações, os exemplos são iguais aos do Brasil. As mesmas coisas que ele fala que aconteciam lá, acontecem aqui. Em níveis de sofisticação diferente, mas é a mesma coisa”.

KL Jay Corpo editado

A importância da educação e da informação, alcançadas por KL Jay por meio das letras do Public Enemy e da leitura de Malcolm X, são, para ele, uma ferramenta importante para a comunidade negra enfrentar as desigualdades sociais e raciais.

“Dificilmente um cara preto, homem ou mulher, uma pessoa, que lê um livro como o do Malcolm X, dificilmente uma pessoa que faz isso vai morrer assassinada, falando de genocídio”.

Mais do que influir Kléber, são essas as referências que vão alimentar o principal grupo de rap da história brasileira, os Racionais MC’s.

Ainda na juventude, KL Jay conheceu Edi Rock, outro integrante do Racionais MC’s, na escola em que fazia o ensino médio. O colégio ficava aberto aos sábados, o que propiciava o encontro de jovens da região que iam dançar, usar a piscina, jogar futebol e conversar.

Edi Rock morava perto da escola, próximo da casa de KL Jay. O vocalista dos Racionais MC’s foi com um rádio para ouvir música, e um aluno que conhecia os dois, os apresentou. A partir desse encontro, a forte identificação fez os dois começarem a sair juntos.

Com os demais integrantes, Mano Brown e Ice Blue, o processo foi diferente. Edi Rock e KL Jay foram se apresentar no Clube do Rap, na Avenida Brigadeiro Luís Antonio. Naquela noite, os dois integrantes da Zona Sul, Mano Brown e Ice Blue, ficaram impressionados com o show da dupla da Zona Norte. KL Jay se lembra vagamente dos dois o cumprimentando, e afirma que quem se recorda bem desse momento são os dois músicos da Zona Sul.

“Eu encontrei o Mano Brown na São Bento. O que eu lembro mesmo foi do contato com ele na São Bento. Depois, começamos a andar juntos”.

A primeira coletânea do grupo, a Consciência Black, lançada em 1987, foi o início da trajetória, que hoje atinge a marca dos 30 anos. O primeiro álbum do grupo, criado de maneira mais planejada, foi o Holocausto Urbano, que toca em um problema sensível para a comunidade negra, o genocídio.

Para KL Jay, algumas letras dos Racionais MC’s permanecem muito atuais por conta da continuidade do problema. Dentre as dezenas de obras, muito presentes no imaginário das periferias das grandes cidades, Kléber destaca duas.

“Os Racionais têm várias músicas né? ‘Capítulo 4, versículo 3’ é uma. É atual. Se você ouvir a música isso acontece hoje. E a ‘Negro Drama’ é a mais sofisticada e moderna, o Brown tava com outra mente, o Edi Rock também. Mas essas músicas daí, a Capítulo 4 e a Negro Drama, essas são foda”.

O negro drama e o genocídio

A atualidade das músicas e o contínuo genocídio negro são reflexos, para Kléber, da posição da população negra na sociedade. “Os pretos estão em território inimigo no mundo inteiro, não só no Brasil”.

Outra razão é a educação. Por meio da escola, dos filmes, das músicas, novelas, capas de revista, o racismo se consolida como um plano bem sucedido no Brasil, que mexe com a mente e a autoestima de ambos, negros e brancos.

“Os brancos são ensinados a achar que são melhores, e os pretos são ensinados a achar que são piores. É um complexo de superioridade perante um complexo de inferioridade. Os brancos são ensinados a ser mais, e os pretos a ser menos”.

Exemplo disso são os termos pejorativos utilizados entre a comunidade negra, tanto no Brasil, quanto nos EUA, e em outros países da diáspora. Para KL Jay, quando o oprimido passa a usar as palavras criadas pelo opressor, o negro, neste caso, se coloca em condição ainda mais vulnerável.

“Muitos caras do rap, do funk falam “eu sou bandido, sou puta, sou cachorro”, entendeu? ‘Eu sou o nigga, o bad nigga’. Tudo isso te mata já aqui. Se a sua mente já está morta, o seu corpo ir embora é muito mais fácil”.

KL Jay acredita ser mais simples matar um povo que não tem auto-estima, poder econômico, acesso à educação, e não se reconhece em território inimigo. “A maioria dos pretos que morrem não tem escola, não sabem ler direito, tem autoestima baixa, pode ver”.

Por isso, para ele, é compreensível a naturalização do extermínio da população negra.

“A mentalidade que está no inconsciente de todo mundo é ‘foda-se os pretos’. Tem que ser direto, não dá para usar outras palavras. ‘Foda-se os pretos’. ‘Os pretos? Foda-se’. Não vale nada, não gosto deles, não têm dinheiro, não têm influência, não se unem, foda-se, podem morrer. Foda-se. Esse é o pensamento”.

KL Jay Corpo editado 3

(Foto: Circuito Fernando Eduardo/Wikimedia Commons)

Para ele, o caminho não é desmistificar, mas sim desconstruir esse modo de pensar, em ambos os grupos raciais por meio do conhecimento.

“Não é só o opressor que nos mata, a gente se mata muito também, porque isso nos foi ensinado”.

Superar essa questão também exige diferente posicionamento no cotidiano. “É mais ou menos você andar em qualquer lugar pensando, ‘mano, eu sou alvo’. Então eu tenho que andar igual um leão, um cachorro na rua. Atento”.

Poder e influência são outras maneiras de enfrentar o genocídio e o racismo, desejos não ensinados à comunidade negra na educação pública, mas bandeiras defendidas pelo hip hop.

“Muita gente deixou de morrer, muitos dos nossos deixaram de morrer, ficaram milionários, montaram empresas, salvaram outros tantos por causa do hip hop. Hip hop foi foda mano. Hip hop é um acontecimento até astrológico eu acho. Um bagulho que salvou várias pessoas, eu mesmo sou um exemplo”.

KL Jay conta que recebe, enquanto anda pelas ruas, ou mesmo quando trabalha enquanto DJ, uma série de confissões do público. Pessoas que dizem, que senão fossem as letras do Racionais MC’s, estariam mortas, ou presas, e hoje trilham uma carreira profissional.

“Ai você fala, não, alguma coisa mudou. Mudou! Todo mundo hoje aqui no Brasil com o cabelo afro, de trancinha, os cortes africanos. Desculpa. Foi o Racionais MC’s. Desculpa, mano. Não foi outro. Foi nóis, mano, o Racionais. Tenho certeza”.

KL Jay ressalta a trajetória dos Racionais MC’s como mais um exemplo de luta e resistência da comunidade negra contra o genocídio e o racismo. A chave para enfrentar o problema é por meio da cultural, educação, poder, autoestima, e do reconhecimento da posição da comunidade negra no Brasil.

“Estamos em território inimigo. Não queira ser aceito, o sistema não gosta de você”.

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